SANTOS CRUZ: “NÃO SE PODE DEIXAR O EXÉRCITO SER ARRASTADO PARA A POLÍTICA, PARA QUE PROTEJA A OU B.”

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A estreia da nossa seção de entrevistas não poderia ter um convidado mais especial. Na semana em que Jair Bolsonaro demitiu o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, que teria se recusado a manifestar apoio das Forças Armadas a posições do presidente, nada mais oportuno do que conversarmos com outro general, que trabalhou dentro do Palácio do Planalto e hoje é um crítico do governo: Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência. Durante quase duas horas, Santos Cruz respondeu perguntas sobre diversos temas, incluindo bastidores do governo e sua preocupação de que o Exército seja “arrastado para a política por um bando de irresponsáveis e inconsequentes”. 

A entrevista atesta o perfil técnico e focado em soluções do general. Para cada problema apresentado, Santos Cruz apontou uma solução que poderia ser adotada pelo governo e lamentou que o presidente perca tanto tempo com ataques pessoais em lugar de liderar o País.

Falamos sobre extremismo, condução da pandemia, Supremo Tribunal Federal – STF, Forças Armadas, retrocessos no combate à corrupção e claro, eleições 2022 e Sergio Moro. Não resisti e perguntei se ele aceitaria, em uma eventual candidatura, ser vice do Moro. Veja a seguir o que ele respondeu. Uma ótima leitura e não se esqueça de deixar o seu comentário sobre a entrevista.

O senhor esteve em outros países, atuando inclusive em áreas de conflito. Como foi essa experiência?

Eu tive a oportunidade de viver em quatro países: nos Estados Unidos, fazendo curso; depois na Rússia, trabalhando na parte diplomática, como adido militar na embaixada, e duas tarefas em área de conflito, no Congo e no Haiti. Eu não tive dificuldade de adaptação, me adaptei muito rápido. Você tem uma estrutura toda, pessoas muito boas que fazem parte do seu Estado maior. Tomar decisões difíceis acontece muito, só que o momento de decisão é só seu, do comandante e mais ninguém. A responsabilidade é toda da pessoa que está no posto máximo; o comandante é responsável por tudo o que acontece e o que deixa de acontecer. Você não pode ficar colocando a culpa em ninguém porque é sua responsabilidade.

Então, quando o senhor vê o comandante máximo do Brasil jogando sempre a culpa nos outros, como faz o presidente Bolsonaro, o que senhor pensa?

Você pode errar, não é perfeito, mas não pode transferir responsabilidade. As pessoas notam de imediato que é uma deformação inaceitável para quem tem o cargo de chefia. Isto é uma coisa básica, senão fica todo mundo perdido.

Como foi que o senhor conheceu o Bolsonaro e entrou no governo? Qual era a sua expectativa quando chegou ao Palácio do Planalto?

Nós nos conhecemos com vinte e poucos anos, no ambiente esportivo do triatlo. A gente tem amizade daquela época; era uma época muito boa. Depois, quando eu estava no Haiti, ele foi em uma comissão parlamentar ver como estava a situação. Quando ele foi eleito, me telefonou e me convidou para ser ministro e eu aceitei. Fui eleitor do Bolsonaro. Não me arrependo. Naquele momento era um ou outro (Haddad ou Bolsonaro) e eu optei. O Bolsonaro foi eleito como uma esperança de fazer uma política diferente, combater a corrupção, fazer uma política decente sem conchavo, para unir o País e acabar com essa divisão social. Então você vai trabalhar por um projeto, vai entusiasmado para fazer coisas novas, boas. A minha expectativa era fazer um governo com compreensão, honestidade e transparência. E não era só minha, era a expectativa de muitos.

Qual foi o episódio que fez o senhor perceber que alguma coisa estava errada no governo Bolsonaro?

Você começa a perceber dificuldade no método de trabalho. O governo já foi organizado de maneira confusa na divisão de atribuições dentro do Palácio (do Planalto), desde o início. Mas não tem problema, você pode corrigir. Todo governo, quando é eleito, faz um decreto de organização governamental – como vai se organizar, se você vai criar ministério, extinguir ministério, quais são as atribuições de um e de outro. E ficou confusa a articulação política e a coordenação do governo. São duas coisas diferentes e isso tem que ser uma coisa bem definida e orientada. Não ficou bom, ficou mal feito. Depois tem as coisas comportamentais. Aí começa a influência do pessoal mais extremista, tumultuando o tempo todo, não a mim, mas a governabilidade.

Você não vota numa família, vota numa pessoa. A expressão de um presidente na rede social é um comunicado à nação. Você não pode governar com um bate-boca diário. Em lugar de discutir ideias, ficam nos ataques pessoais.

O presidente dava mais atenção para esses extremistas?

O PSL não era um partido político estruturado. De repente, ele estourou, (passou) de dois deputados para 55. Então você tem que ter um trabalho muito bom de liderança para transformar aqueles 55 num partido político com filosofia, liderança coordenada nas votações. Não é só eleger todo mundo numa onda. Tem que transformar tudo aquilo na sua base, agregar outros. É um trabalho que você tem que ter tranquilidade, mas você vê influência do pessoal do Twitter na vida política, familiar escrevendo no Twitter do próprio presidente. O Twitter de um presidente é uma coisa muito séria, tem que ser ele mesmo a escrever e se responsabilizar. Então, você vê o outro lá de fora do Brasil (Olavo de Carvalho) falando coisas. Você não vota numa família, vota numa pessoa. A expressão de um presidente na rede social é um comunicado à nação. Você não pode governar com um bate-boca diário. Outra coisa: também continuou o clima de campanha. Nenhum país vive de campanha política. Tem a campanha política na véspera, depois todo mundo tem que se acalmar, tem que trabalhar, produzir. Mas a disputa continuou. Foi uma campanha de ataques pessoais, não foi uma campanha de discussão de projetos e até hoje continua. O empobrecimento da política ficou muito grande. Em lugar de discutir ideias, ficam nos ataques pessoais.

O senhor falou em ataques pessoais e falou no Olavo de Carvalho. O senhor sentiu isso: que o Olavo fala e os outros vão repercutindo até derrubar  a pessoa?

Eu não dou importância para essa pessoa. Pra mim, é um ilustre desconhecido, um comportamento completamente deformado. Não tem nada de aproveitável. O comportamento do grupo seguidor, infelizmente, é um comportamento de seita. 

Como foi quando o senhor saiu? Inventaram uma gravação que o senhor teria falado coisas…

Aquilo ali foi um crime de internet, de nível colegial, feito por gente com acesso ao presidente da República. Foi uma coisa ridícula. O nível é muito baixo. A minha saída, eu acho, não tem nada a ver com aquilo. Não tem nada de ilegal ou de anormal o presidente trocar um ministro, é um direito e não existe nenhum governo que comece e termine com a mesma equipe de ministros. Isto é normal. O que não é normal é, para cada troca de ministro, você ter uma novela pública de ataques, baixaria geral, com gente completamente desqualificada. Você não pode fazer um governo com um grupo de gente extremista.

O senhor mencionou a novela para troca de ministros e, recentemente, houve o caso da cardiologista Ludhmila Hajjar, que foi cotada para substituir o Pazuello e, logo, surgiram vídeos, fake news e até ameaças. Isso é planejado?

Foi falta de um método de trabalho, de capacidade. Você tem uma quantidade imensa de pessoas no Brasil, que você pode convidar para uma função ministerial, mas, se quer convidar uma pessoa, você dá uma olhada na vida pregressa dela, na vida pública, na qualidade técnica, nos trabalhos que ela já fez. Mas aí essa gangue digital entra para atacar a pessoa. Você não precisa convidar aquela pessoa. Pra que você convidou? Por que não fez o trabalho antes? Por que não fez um levantamento pra ver se agradava a você, como governante, a nomeação? Isso é falta de método de trabalho, simplesmente isso.

Há quem acredite que isso seja um método. O Bolsonaro queria convidar o Marcelo Queiroga, ligado ao Flávio, aí chama outra pessoa, queima a pessoa e depois fala que vai atender os seguidores e escolhe quem ele realmente queria.

Não, acho que não tem inteligência pra isso não. Isso aí pra mim é falta de metodologia. Você quer convidar uma pessoa, convida; não precisa convidar outra pra fazer escândalo de internet e os extremistas entrarem para atacar. Isso é um absurdo! O País não pode viver nesse tipo de ambiente; é uma insensatez total.

Todas as medidas que foram aconselhadas tiveram tentativas de desmoralização pelo próprio presidente – o uso da máscara, o programa de não poder fazer aglomeração, tentando falar de remédio. Presidente não tem que falar de remédio! Ele convoca uma força-tarefa de gente capaz e pede para fazer um estudo.

Como o senhor avalia a condução da pandemia, vendo o caos que a gente está vivendo atualmente?

A questão da pandemia teve uma condução desastrosa desde o início. Quando você tem uma crise forte é exatamente o momento em que a liderança tem que entrar. Lá no início, tinha que ter pego os governadores e dizer: “Olha, vamos esquecer o problema partidário e enfrentar esse problema juntos, porque ninguém conhece direito essa pandemia”. É uma situação crítica. Você tem que ter calma e assumir a liderança. Não houve isso, e aí começou uma história de que o STF atrapalhava, já botando a culpa no outro, em todo mundo. O STF falou que os prefeitos e governadores têm autoridade para determinar algumas medidas na área deles. Um país deste tamanho… Uma coisa que você faz em Porto Alegre não é mesma coisa que você faz no Macapá. Os prefeitos e os governadores são os caras que estão segurando esse rojão do problema hospitalar e do atendimento às pessoas. Não foi montado um sistema de união do governo federal, estadual, municipal. Pelo contrário! O governo federal mandou dinheiro, tinha que mandar. Só que parece que não houve critérios muito bem estabelecidos. O Congresso fez a parte dele e autorizou o presidente a gastar quanto precisasse. O auxílio emergencial foi a mesma coisa: tinha que fazer, tem que continuar fazendo, mas você tem que ter critério e não deixar bilhões em fraudes dentro de um programa deste. E a briga é permanente. Quando substituiu o ministro Mandetta, por exemplo… Você não gostou, você substitui. O que não pode é ficar um mês com show de briga pública. Isso só desgasta e tira a atenção daquilo que é importante. Aí colocou outro ministro que ficou mais ou menos um mês; depois colocou outro, que saiu também agora. Você não tem uma condução equilibrada das coisas. Todas as medidas que foram aconselhadas tiveram tentativas de desmoralização pelo próprio presidente – o uso da máscara, o programa de não poder fazer aglomeração, tentando falar de remédio. Presidente não tem que falar de remédio! Ele convoca uma força-tarefa de gente capaz e pede para fazer um estudo. Se tem tratamento precoce ou se não tem, não sou eu que tenho que definir; tem o Ministério da Saúde, a Anvisa, a Associação Médica Brasileira, muita gente boa. E você, através do seu ministério e pessoalmente em algumas vezes, transmite uma orientação à população. Você não pode ter uma vacina e dizer que não vai comprar a vacina. Claro que tem que comprar vacina! Aí está fazendo a vacina lá em São Paulo e não pode tomar a vacina porque não tem credibilidade, pode dar reações e você pode até virar jacaré. Só bobagens! O que o presidente fala tem efeito, tem consequências. As pessoas ficam inseguras porque falta orientação técnica e falta uma conversa equilibrada da autoridade máxima.

E quanto ao Pazuello? Como o senhor avalia a gestão dele? O senhor já o conhecia?

(Conhecia) de vista. Ele é da linha de administração. No Exército, você tem a linha combatente, de apoio ao combate, e a linha de logística. Ele é dessa área de administração e logística. Ele foi para (o Ministério da Saúde) ser secretário executivo, não foi para ser ministro. Foi designado para a administração e alçado para ser ministro, responsável pela saúde pública, que não é a área dele, no meio de uma confusão. O presidente desprestigiava tudo que era medida que (ele) tomava. Eu me lembro de uma vez que ele disse que ia comprar vacina; no dia seguinte, o presidente apareceu e falou: “Não, não vai comprar vacina coisa nenhuma, quem manda sou eu!”.

O senhor acha, então, que o Pazuello fez o que ele podia? Afinal, ele aceitou permanecer no Ministério.

Também tem isso. É uma questão de responsabilidade pessoal, de aceitar aquela situação ali e o presidente desprestigiar as decisões do ministro. Teve também aquele momento ruim de “um manda e o outro obedece”. Não era um relacionamento honesto, de troca de ideias. É uma autoridade que não sabe dar diretriz, não sabe coordenar, só sabe brigar e desautorizar. Aí fica difícil. 

Os extremistas têm um comportamento absolutamente igual. Para mim, os extremistas não são nem de esquerda, nem de direita. Acho que esquerda e direita são uma coisa tão desqualificada, tão limitada e antiquada, que não tem nem aplicação. Eles são extremistas porque não têm capacidade de análise.

As Forças Armadas sempre foram criticadas por personalidades da esquerda e agora, por conta dos generais palacianos, estão sendo criticadas também por parte da direita. Como o senhor vê isso?

Eu não vejo as Forças Armadas criticadas nem pela esquerda, nem pela direita. Eu vejo críticas de extremistas, de um lado e de outro. Os extremistas têm um comportamento absolutamente igual. Para mim, os extremistas não são nem de esquerda, nem de direita. Acho que esquerda e direita são uma coisa tão desqualificada, tão limitada e antiquada, que não tem nem aplicação. Eles são extremistas porque não têm capacidade de análise. A capacidade deles é binária e é mais fácil de você manipular – se você discorda de mim, já digo que é de esquerda ou direita. Essa simplificação, você vê no fascismo, no comunismo e no nazismo. É uma simplificação perigosa para manipular a opinião pública, e leva ao fanatismo e à violência. Todas as sociedades que se dividiram entre uma coisa e outra e foram pelo caminho do fanatismo, terminaram em violência.

O senhor tem medo que isso aconteça no Brasil?

Eu não tenho medo não, eu tenho certeza. Se continuar com esse nível de fanatismo, de ataque pessoal, de falta de capacidade de discutir ideias, não tenho dúvidas. A gente já está tendo violência, no mínimo, violência localizada. Você vê nos Estados Unidos, um país que tem uma democracia estável, teve lá uma situação vexatória. Esse fanatismo alimenta teorias da conspiração, como no Brasil hoje. Os extremistas que apoiam o governo acham que tudo é pra derrubar o presidente. O governador quer matar gente pra derrubar o presidente, o empresário não quer produzir para ter caos econômico e um mundo inteiro (está) num complô para derrubar o presidente. Esse fanatismo traz consequências horríveis.

O que o senhor espera das eleições de 2022? O senhor acredita nas urnas eletrônicas, que têm sido tão criticadas pelo presidente?

As urnas eletrônicas estão aí há 25 anos e todas as eleições foram validadas. Você não tem escândalo de fraude eleitoral nas urnas eletrônicas no Brasil. Processo eleitoral é uma coisa que tem que ter credibilidade. Se você acha que não está tendo credibilidade (junto à população), você tem que dar um jeito de mostrar que aquele processo tem credibilidade. Pra mim, a Justiça Eleitoral precisa fazer uma campanha sobre isso, esclarecer a população. É válido você fazer, por amostragem em algumas sessões, o voto impresso. É uma questão técnica, que tem que conversar com o Tribunal Superior Eleitoral. Outra coisa: você pode ter outros processos de verificação, pode autorizar partidos políticos que contratem auditorias para acompanhar. Mas aquele que disser que o processo é fraudulento tem que comprovar ou simplesmente está criando tumulto. O presidente falou que ele foi eleito no primeiro turno e que houve fraude, e que ele tinha prova disso. Se tem prova disso, ele tem que mostrar e, se não mostrar, é falta de responsabilidade porque sua palavra é importante para a tranquilidade social. É muito complicado! É a primeira vez que vejo alguém que ganhou uma eleição contestar a eleição que ganhou.  

Como o senhor vê a política externa do Brasil? Quais as consequências a médio e longo prazo desse modelo adotado pelo governo?  

A política externa do Brasil é um desastre. Nós conseguimos brigar com a China, nosso maior parceiro comercial; conseguimos brigar com a Argentina, com os Estados Unidos, Alemanha e a França. Você passa a ter dificuldade em diversos órgãos internacionais. A sua voz perde a credibilidade nas discussões internacionais e tem consequências em outros setores internacionais, como a Organização Mundial do Comércio. Parece que o Brasil está tentando entrar na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e também validar um acordo com a União Europeia, mas está tudo parado.  

O combate à corrupção é o sonho de todos os brasileiros. A corrupção é uma pandemia permanente no Brasil, um câncer na sociedade brasileira. A Operação Lava Jato foi simbólica, não só pelos resultados reais dela, mas também porque mexeu com a esperança de toda a população.

No caso da OCDE, há um grande problema por conta dos retrocessos no combate à corrupção, na contramão das promessas de campanha do Bolsonaro. Como chegamos a esse ponto de tantos retrocessos, que culminou com o desmonte da Operação Lava Jato?

O combate à corrupção é o sonho de todos os brasileiros. A corrupção é uma pandemia permanente no Brasil, um câncer na sociedade brasileira. A Operação Lava Jato foi simbólica, não só pelos resultados reais dela, mas também porque mexeu com a esperança de toda a população. O Brasil é um país cheio de privilégios para alguns e desgraça para outros. A população viu pessoas influentes e ricas, milionários e influentes na política serem julgados. Isto foi um marco na história do Brasil. Foi um marco mundial. Tanto que foi usado na campanha (eleitoral) pra dizer que ia continuar o combate à corrupção e que a principal figura, que era o ex-juiz Sergio Moro, ia ser ministro da Justiça. Mas isso não se concretizou. Você vê o tal do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras)… Ninguém nem sabia o que era o Coaf e, de repente, a população inteira sabe o que é. Agora estão encerrando a Operação Lava Jato – uma das bandeiras na qual a população votou.  

O que mudou no meio do caminho e fez o presidente abandonar essa bandeira?  

Não acho que mudou no meio do caminho, mudou desde o início. O País estava meio desunido; os radicais do PT já tinham trabalhado nesta divisão social. Então, você tinha que desfazer aquilo e trazer uma aproximação social. O que estamos vivendo agora tem várias consequências. Tinha que ter um planejamento de como continuar o combate à corrupção e fazer uma coisa transparente para o País. Como vai ter combate à corrupção sem (a prisão após condenação em) segunda instância; reinventaram o juiz de garantias e o pacote anticrime, a lei do abuso de autoridade… Esse conjunto todo de coisas tinha que entrar em um planejamento de como fazer o combate à corrupção e como continuar este combate.

Como o senhor vê a ligação do presidente com os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes, tão criticados pelos apoiadores do governo? E o que o senhor achou da indicação do Kassio Nunes para o STF?  

Uma coisa é assunto pessoal e outra coisa é assunto institucional. Você pode ser presidente e amigo de um juiz do STF, não tem problema nenhum. O STF e os Poderes estão muito desgastados – particularmente o STF.  É uma instituição que está desgastada, com problema de prestígio. E não adianta este pessoal ficar xingando e dizer que vai fechar o STF. Ninguém vai fechar nada. Não pode fechar uma instituição que tem que existir. Você tem que aperfeiçoar as instituições. Isso é fundamental porque, na democracia, tem que ter aperfeiçoamento constante das instituições. Se o governante não tiver a noção institucional, não tem como viver em um ambiente democrático. O STF tem problema? Tem. Tem problema de prestígio? Tem. A população não admira algumas decisões e critica algumas decisões? Critica. Então tem que fazer alguma coisa para melhorar. Em primeiro lugar, tem que ter gente capacitada para discutir a estrutura. Você pode mexer na idade, pode mencionar a composição, mexer nas obrigações e nas atribuições. Você pode fazer critérios para a escolha do juiz. A escolha é do presidente, mas mediante determinados critérios. Quando você ganha uma eleição, tem que governar pra todo mundo – até pra quem perdeu, tem que unir o País. Seu discurso de posse é para o País inteiro. Você pode fazer uma referência para os seus eleitores, mas o País tem que saber que você vai governar pra todo mundo. Você tem várias coisas pra propor. Pode tentar mexer na vitaliciedade, porque a coisa é vitalícia. Pra mim, isso é um negócio da idade média. Vitalício, pra mim, é da Idade Média. Pode propor várias coisas, mas você não vê proposta nenhuma de melhoria dos critérios. Não faz por falta de noção institucional, falta de valorizar o aperfeiçoamento das instituições. E outra coisa porque é algo por interesse pessoal. Eu não conheço o Kassio Nunes. Acho que ninguém conhecia. Eu, como cidadão, nunca tinha ouvido falar. Então, não posso falar nada. Tem que estabelecer critérios.

Saiu uma nota na imprensa sobre o nome do senhor ter sido mencionado como opção em uma chapa do PT. O Lula está de olho no senhor?

Ah, isso aí deve ser uma conversa lá dentro do partido. Não tenho nada a ver com isso (risos). Alguém deve ter sugerido isso, talvez um militar. Isso aí são coisas normais, não adianta todo mundo se assustar. Agora vem o período de organização das candidaturas e essas coisas acontecem.  

Para 2022, qual seria o seu candidato ideal? 

O candidato ideal não pode estar nem entre os extremistas de uma ponta e nem de outra. O Brasil é um país que está cansado de extremismos, de brigas. A gente não conseguiu ter paz social desde a última eleição. O candidato ideal é o que tem uma posição equilibrada, que traga de volta o equilíbrio para o País. Não adianta pegar aqueles extremistas, seja de esquerda ou de direita. É o caso, por exemplo, do ex-presidente Lula. Ele teve a oportunidade dele por dois mandatos. E a sucessora dele também foi eleita; essa linha política teve a sua oportunidade. Ele fez algumas coisas e, em outras, se perdeu. O atual governo, em pouco mais de dois anos, já mostrou a dificuldade de ter equilíbrio. Acho que tem que ser uma pessoa que não esteja desatualizada. Quem é, tem de se esperar mais um pouquinho para ver como vai se arrumar isso. Você tem candidato aí que ele próprio não se intitula como candidato. Muita gente quer o Sergio Moro, pelo que ele representa. Você tem o PSDB, talvez saia dali alguma pessoa como o governador do Rio Grande do Sul, essa nova geração. É importante haver pessoas que sempre participam dos processos, como é o caso do Ciro Gomes, lá do Ceará, que já participou de várias eleições. Tem que esperar um pouco para ver como vai se definir e quem vai representar essa via de centro. Tem que ser uma pessoa equilibrada, gente que una o País, que tenha diálogo com o outro lado. Não pode governar sem o diálogo com o outro lado. Os extremistas não têm como dialogar. Extremismo é psicopatia, é algo que vai fazer a sociedade sempre ficar dividida. Existem alguns que são extremistas até por personalidade. Esses aí você nem conta.

Sergio Moro é uma pessoa extremamente equilibrada, honesta e corajosa. Para você fazer o trabalho que ele fez, julgar uma centena de pessoas, todas elas influentes, em uma sociedade deformada como a nossa, cheias de privilégios na política e na vida financeira, tem que ter coragem.

Como o senhor conheceu o Sergio Moro e como foi a convivência com ele? 

Eu o conheci nas questões relativas ao governo. É uma pessoa extremamente equilibrada, honesta e corajosa. Isso é fundamental. Para você fazer o trabalho que ele fez, julgar uma centena de pessoas, todas elas influentes, em uma sociedade deformada como a nossa, cheias de privilégios na política e na vida financeira, tem que ter coragem. É um risco pra você, para sua família, para todo mundo. Ele é um cara extremamente corajoso, equilibrado e eu tenho a certeza que ele tem as características para transmitir paz e união para o País. Sergio Moro é um ícone que passou para a história do Brasil.  

Agora todo o sistema se juntou para perseguir o Moro. Qual a leitura que o senhor faz disso?  

Eu acho que é uma coisa que valoriza ainda mais o Sergio Moro. O que estamos discutindo não é se os crimes existiram, o que eu tenho visto de discussão pública não é na parte processual, de injustiça. Você tem, por exemplo, gente que devolveu o dinheiro. Então, se devolveu, isso é uma prova física de que a decisão estava correta. Não tem nada decidido, mas eu espero que a justiça acabe vencendo.

O senhor aceitaria ser vice do Moro? 

Essa resposta eu não posso adiantar (risos).

Ora, adianta aí (risos)

Eu só posso dar essa resposta se ele for candidato e se ele me convidar (risos). Não adianta eu dizer isso agora. Dizer algo assim, agora, seria extremamente indiscreto.  

O que o senhor está fazendo hoje? Como é o seu dia-a-dia?

Eu estou fazendo o que eu gosto. Gosto de vida rural, da lida no campo. É o que eu sei fazer, me criei assim e está ótimo. Eu tenho me manifestado publicamente, como é o caso dessa entrevista com você, com duas finalidades: a primeira delas é alertar o Brasil, dentro da possibilidade e da influência que eu tenho, de que o País não pode seguir esse caminho de fanatismo, porque isso leva à violência. O fanatismo é a destruição do País. Outra coisa é não deixar o Exército, onde trabalhei por 47 anos, ser arrastado para a política por um bando de irresponsáveis e inconsequentes. É por isso que eu tenho feito essas manifestações públicas. Não se pode deixar o Exército ser arrastado para a política, para que proteja A ou B.  

Eu acredito nos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Eles não vão entrar numa fria, de permitir que as Forças Armadas sejam arrastadas para a política, a fim de proteger o governo do momento.

De que forma o senhor acha que estão tentando fazer isso e como o Exército está reagindo? É possível um autogolpe do governo?  

Olha, eu não posso falar pelo Exército, pois estou fora há muito tempo. Mas eu acredito nos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Eles não vão entrar numa fria, de permitir que as Forças Armadas sejam arrastadas para a política, a fim de proteger o governo do momento. Eles não vão entrar nessa, pode ter certeza. É um pessoal muito esclarecido, não vão batalhar por interesses pessoais de poder.  

Qual a sua mensagem para os brasileiros, que estão revoltados com tanto descaso na pandemia e tantos retrocessos no combate à corrupção?

Muita gente está tendo a sensação de insegurança. A pandemia se espalhou de uma forma terrível. Hoje em dia, todo mundo já conhece alguém ou tem alguém na família que morreu por causa do coronavírus. A gente começa a conviver muito de perto com essa desgraça e aí você tem uma falta de liderança – o que não transmite tranquilidade, não transmite paz. Há muita gente passando necessidade, querendo trabalhar. E você não tem uma orientação técnica para a população. Aqueles que, como eu, já estão aposentados, têm o seu salário, precisam deixar o espaço para quem precisa trabalhar, para aqueles que realmente precisam produzir alguma coisa para se sustentar. Outra coisa que está trazendo muita insegurança é que (o coronavírus) está pegando muita gente jovem, na casa dos 40 e 50 anos. São os que precisam trabalhar e estão expostos, e não tem um estudo técnico para orientar essas pessoas. Os mais velhos têm a vacina, mas os mais novos estão até mesmo sem orientação. Então, há muitas razões de insegurança. A população tem que se manifestar contra essa falta de medidas, sobre a parte econômica, tem que se fazer algo – até alguns cortes. Por exemplo, ninguém se manifestou sobre o fundo partidário: não se cortou e nem mesmo se reduziu. Não é preciso eliminar, mas, em uma hora dessas, poderia reduzir o fundo partidário, o dinheiro de gabinetes de parlamentares. Tivemos há pouco o perdão de 1,4 bilhão da dívida das igrejas evangélicas. É hora de se dar perdão desse tipo? Várias medidas poderiam ser tomadas. Outra coisa é a solidariedade. O governo tem que ter um discurso para reforçar a solidariedade da nação, para as famílias que estão perdendo gente, que estão empobrecendo, que estão em dificuldades. Suspender pagamentos de supersalários. Há várias coisas que a sociedade pode exigir. O governo poderia ter um discurso de solidariedade. Eu fico feliz de ter um caseiro que trabalha aqui na minha casa; são duas famílias que eu mantenho com dignidade. Todo mundo tem que fazer alguma coisa. É uma situação difícil, tem que ter compaixão pelas famílias que estão perdendo gente, por aqueles que estão deixando de trabalhar, tem que ajudar, até fisicamente, com dinheiro, coisas e com programas sociais. 

O senhor acha que o Brasil ainda tem jeito, depois de todos esses anos de PT e agora essa decepção e tantos retrocessos com o governo Bolsonaro? 

Tem jeito, mas é um caminho longo. Não adianta querer um salvador da Pátria. As pessoas estão desiludidas porque acreditaram que havia salvador da Pátria. Isso não existe. É passo a passo. Mas os extremistas querem convencer que existe o salvador da Pátria e que é só um. Temos é que melhorar as instituições. Tem que ter liderança e, devagar, você vai melhorando as coisas. Não adianta esperar por salvador da Pátria, essa manipulação de que “ou é extrema direita ou é comunismo”, isso é mentira, é manipulação da opinião pública. É preciso gente equilibrada, com liderança e que vá, devagarzinho, melhorando as coisas.  

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5 respostas

  1. Parabéns pela entrevista. Bom saber um pouquinho sobre os bastidores da nossa política. Nenhuma novidade. Mas, ouvir de uma pessoas centrada, séria, nos faz pensar, que estamos no caminho certo. Nossa luta continua por um país justo, limpo e sem corrupção.

  2. Assisto muitas entrevistas do general, mas esta foi a mais completa e interessante delas. Questionamentos pertinentes, que fizeram o entrevistado, bem a vontade, revelar seus pensamentos sobre assuntos relevantes para todos nós. Suas opiniões nos revelam sua inteligengia, cultura e, o melhor, que poderia ocupar lugar de destaque em futuro governo mais capaz. Está de parabéns, Susana, fiquei fã.

  3. Parabéns Susana. Entrevista maravilhosa. O General Santos Cruz é um orgulho para as FFAA e para o Brasil.

  4. Excellente entrevista, general Santos Cruz me representa. Homem honesto e do bem, calmo nas suas respostas. Precisamos de mais políticos como ele. Espero que faça parte do próximo governo.

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