ORIOVISTO GUIMARÃES: “A HORA DE BATER PANELA PARA QUE O MORO SEJA CANDIDATO É AGORA.”

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Em seu primeiro e, conforme prometido, último mandato como senador, Oriovisto Guimarães tem se dedicado a aprovar reformas importantes para o País, especialmente aquelas que impactem o próprio sistema político e o Judiciário. Acabar com o foro privilegiado é o seu foco principal. “Com o fim do foro privilegiado, você sabe o que vai acontecer? A política brasileira vai ficar limpa”, diz com empolgação.

De uns tempos para cá, um outro projeto tem feito os olhos do senador brilharem: eleger Sergio Moro presidente. Com o senador Alvaro Dias e Renata Abreu, presidente do seu partido, o Podemos, Oriovisto vem tentando convencer Moro a se candidatar. Para ele, não é possível que o Brasil tenha que se decidir entre dois extremos em 2022 ou entre a corrupção da esquerda e a corrupção da direita.

O senador se mostra impressionado com a cultura geral de Moro e acredita que ele reúna todas as condições para ser um grande presidente. Só faltaria mesmo se tornar um grande político.

Apesar do esforço para que Sergio Moro aceite o convite para ser o candidato à presidência pelo Podemos, Oriovisto enfatiza a importância de o povo entender o papel central do Congresso e eleger bons deputados federais e bons senadores. “Se o povo não mudar, o Poder Legislativo também não muda, e o País não muda”.

Nesta entrevista, falamos sobre o STF, a CPI da Covid, o papel dos dois senadores do Podemos na CPI, a corrupção no governo Bolsonaro e os constantes ataques do presidente à democracia, dentre outros assuntos.

Uma ótima leitura e não se esqueça de deixar o seu comentário!

Como foi a sua trajetória de vida até chegar ao Senado Federal?

Minha história aconteceu de maneira muito simples. Eu morava no interior do Paraná, em Apucarana, e vim para Curitiba fazer o antigo cientifico – hoje ensino médio – no Colégio Estadual do Paraná. Fiz vestibular para a Universidade Federal do Paraná. Cursei e concluí Ciências Econômicas e cursei Engenharia Civil até o quarto ano. Comecei a dar aulas particulares de física e matemática e, em seguida, em curso preparatório para vestibular. Depois, com outros sócios, fundei o Curso Positivo, que era só o “cursinho” Positivo. Esse cursinho evoluiu para ensino regular, uma editora e uma universidade, da qual fui o primeiro reitor, ao longo de dez anos. Construímos o campus, montamos também junto com o Rotenberg (Hélio Bruck Rotenberg) a Positivo Informática, com aulas de computadores. Permaneci mais de 40 anos no Grupo Positivo. 

Ao me aposentar, por volta dos 65 ou 66 anos de idade, era o presidente do Grupo Positivo, que somava 10 mil funcionários. Achando muito cedo para não fazer nada, resolvi me candidatar ao Senado Federal. Sempre tive participação política. Desde a minha juventude, sempre participei bastante. Estava na hora de não ficar só na crítica, mas de colocar a mão na massa e fazer de fato alguma coisa. 

A convite do Alvaro Dias, que é uma pessoa que eu já conhecia de muito tempo, entrei para o partido Podemos e deu certo a candidatura. Com uma situação financeira bastante privilegiada, fiz minha campanha sem pedir nada a ninguém e fui o senador mais votado do Paraná nas eleições de 2018, com quase três milhões de votos. Acho que fui um bom professor de Matemática. O excelente resultado se deu, basicamente, pelo apoio de muitos ex-alunos que incentivaram e fizeram campanha. 

Não pretendo ser candidato a nenhum outro cargo político. Eu disse isso em campanha e vou obedecer. Estou terminando o terceiro ano agora em 2021, vou cumprir meus oito anos de mandato como senador e me aposentar da vida política. Na vida empresarial, talvez, continue a fazer alguma coisa, mas a vida política eu não quero mais. Sou contra a reeleição, não gosto de reeleição. Entendo que a política não deveria ser vista como uma profissão, deveria ser vista como um período em que você resolve ajudar a sua nação, e fazer política tem sido realmente pensar na nação. Quando você faz política como carreira, eu acho que as coisas começam a ficar confusas. Você não sabe se pensa na sua carreira, ou no que quer que você pensa. 

Em resumo, minha história é essa. 

Seguimos carentes de bons exemplos na vida pública. Por favor, fale mais sobre o que motivou uma pessoa tão bem-sucedida como o senhor a se candidatar. O que passou pela sua cabeça?

O que passou pela minha cabeça foi a vontade de ajudar a transformar o Brasil, a ajudar a fazer com que o País fosse um país melhor. Você, como qualquer pessoa, Susana, resolve a sua vida, resolve a sua quadra de dentro dos muros do seu terreno onde vive. Mas, você sai de casa e vive em uma sociedade. Você vive com milhões de pessoas, que afetam diretamente a sua vida. É mais ou menos feliz conforme este país é mais ou menos feliz. Precisamos de um país mais correto, com menos gente passando fome, menos roubalheira, com mais justiça, as coisas funcionando melhor… Com tudo isso, se sentir útil é fundamental. Trabalhar sempre foi essencial para mim. Mas, eu não queria mais trabalhar como empresário, eu queria trabalhar agora tentando fazer alguma coisa pelo bem comum, e foi com este espírito que eu fui para a política, só com este espírito. E descobri coisas que eu não sabia, mas disso a gente fala depois.

A que o senhor atribuiria o fato de, relativamente, poucos empresários tomarem a decisão de ingressar na vida política? Com que planos e sonhos o senhor entrou no Senado e o que encontrou?

Pois é, por que poucas pessoas fazem o que eu fiz, eu não sei. Mas, sempre que faço palestras, converso, incentivo muito a participação dos que não são políticos de carreira, que não passaram a vida inteira em cargos políticos. Especialmente, quando se chega a uma fase como a aposentadoria. Às vezes, vivemos até os 80 ou 85 com uma boa saúde, boa disposição; temos tempo e certa experiência; já temos conhecimentos acumulados. Podemos sim ajudar muito ao próximo. Sobretudo, se ajudamos na melhor organização do nosso País. O País é fruto das regras, das normas, das leis, da Constituição e do exercício do poder, mas se isso funciona, se os Três Poderes funcionam bem, é claro que o País vai melhor. O que diferencia o Brasil de países como os EUA, França ou Inglaterra? Certamente em termos de natureza e recursos naturais nós estamos muito à frente. O nosso problema é a organização social. Nossos problemas são as nossas leis; a maneira como nossos Três Poderes funcionam; a educação do nosso povo, que é muito ruim. Atuar na organização destas questões é uma missão nobre, linda, e enche de vontade e de energia quem pensa um pouco nisso. É preciso se doar, porque é bastante incômodo, muito difícil. 

O que eu encontrei… Basicamente, eu descobri uma coisa: fui para o Senado cheio de ideias, e ainda tenho as ideias, não desisti delas. Mas, eu descobri que era sócio de uma empresa que tem 81 sócios. Eu tinha um sobre 81 das ações. E a maioria te atropela, a maioria dos acionistas não pensam como você pensa, então você tem que ter este convívio democrático, tem que colocar suas ideias, tem que ter paciência. Tem lá uns cinco senadores com pensamentos muito parecidos sobre muitas coisas, por exemplo, prisão em segunda instância, fim do foro privilegiado, reforma sobre o nosso sistema judiciário, a necessidade de uma reforma tributária que não acontece. 

O número de partidos que nós temos é um absurdo: mais de 30 partidos atuantes. Partidos que são verdadeiras empresas privadas. O País tem donos, e eles vivem dos bilhões de reais do fundo eleitoral e do fundo partidário, o que é um absurdo. Nós temos um país inteiro para ser reformado em coisas básicas, mas só vemos reformas pequenas. 

Um exemplo simples: só o fim do foro privilegiado seria uma transformação enorme para o Brasil. Note, já foi aprovado no Senado Federal, pelo senador Alvaro Dias. Falta apenas ser aprovado pela Câmara dos Deputados, mas está lá há mais de três anos e não votam. Com o fim do foro privilegiado, você sabe o que vai acontecer? A política brasileira vai ficar limpa. Todos os que têm processos serão condenados em segunda instância, rapidamente. Se for para a segunda instância e tiver o fim do foro privilegiado, o deputado ou o senador que for condenado cai na Lei da Ficha Limpa; não pode mais ser candidato. Mesmo que ele não vá preso, não tem mais prisão em segunda instância agora, mas, caindo na Lei da Ficha Limpa, ele não pode mais ser candidato. Isso significa o seguinte: você limpa a política, porque todo mundo que for condenado em segunda instância não pode mais ser político. No Supremo Tribunal Federal, infelizmente, eles não serão condenados nunca. No Supremo, não se condena ninguém. Se o Supremo depende dos parlamentares e os parlamentares dependem do Supremo, então um ajuda o outro. O Supremo não condena parlamentar e o parlamentar não mexe com as reformas que precisam ser feitas no Supremo, que só o parlamento poderia fazer e não faz. Então está lá, parado, o fim do foro privilegiado.

Aí perguntam: como é que se faz para eleger bem? É difícil. Como é que você faz para contratar uma pessoa para trabalhar para você? Você olha primeiramente se ela tem histórico de que já roubou algum dia na vida. Já tem algum processo? Tem competência? Tem bons hábitos? Isso que você usa para escolher alguém para trabalhar para você, para ser teu sócio, para ser teu funcionário, é o que nós deveríamos usar para escolher e votar no candidato. 

Eu vi que o senhor tem vários projetos voltados para o combate à corrupção, reformas administrativa e política, dentre outros. Mas por que, no final, com tantos projetos bons, o que a gente tem é a aprovação da PEC da Impunidade, aumento do Fundão? O que está faltando é a pressão da sociedade? O que podemos fazer para que os bons projetos sejam votados?

Eu acho que o brasileiro de um modo geral faz uma confusão enorme na cabeça quando ele pensa no governo brasileiro. Nós estamos acostumados a pensar que elegendo um presidente bom tudo vai ser resolvido. Não vai! Pode eleger quem você quiser, pode eleger o Sergio Moro, não vai resolver. Pode eleger quem você quiser. Desde que existe a democracia, o que é que você tem? Três poderes, e é isso que o brasileiro tem que pensar. São três poderes. E o poder legislativo, ou seja, a Câmara dos Deputados e o Senado, são de fundamental importância. Se você não tiver um poder legislativo composto de pessoas que realmente queiram fazer estas reformas, as reformas simplesmente não vão acontecer, como não estão acontecendo hoje. Pode o presidente querer, pode quem quiser querer, lá não passa. Somos 513 deputados e 81 senadores e nada passou. O fim do foro privilegiado aguarda há três anos. Por que não votam isso lá na Câmara dos Deputados? Porque não querem, porque querem ter foro privilegiado. E por que querem ter foro privilegiado? Porque isso os ajuda a fazer política do jeito que eles fazem. Nós sabemos como é. Então o que temos que fazer? Pode a sociedade pressionar? Pode! Pode ser que resolva? Pode! Mas será que a sociedade vai ficar pressionando o tempo todo, o ano inteiro? É difícil; a sociedade não aguenta tanta mobilização. Eu acho que nós deveríamos ter consciência e caprichar muito na hora de eleger um deputado, na hora de eleger um senador. Veja quantos são reeleitos com oito, dez, 15 processos. E se reelegem, reelegem, reelegem… A cada quatro anos você pode mudar a Câmara dos Deputados inteirinha se quiser, mas reelegem a maioria. Se o povo não mudar, o Poder Legislativo também não muda, e o País não muda.

Citei há pouco o Sergio Moro. Sempre tive grande simpatia e acho que o Moro foi um divisor de águas. Ele fez algo inédito para o Brasil: colocou às claras esse patrimonialismo (citado pelo) Fernando Henrique Cardoso, acusado em livros, que é este conluio entre empresários e políticos corruptos dos dois lados, e que vem fazendo do Brasil o que ele é. Desde o tempo do Império que as pessoas se aproximam da corte para ter vantagem – e o Moro colocou um pouco de cidadania nisso, colocou às claras esse imbróglio todo, e estamos pagando um preço alto; vivemos isso nos dias de hoje.

Que perfil o eleitor deveria buscar na escolha de deputados e senadores? Que reforma eleitoral deveríamos fazer para uma verdadeira renovação do Congresso?

Nós não votamos (a reforma) ainda. Está na Câmara dos Deputados ainda. Qualquer que seja o sistema, seja o Distritão, seja o Distrital, seja o que for, o importante é a qualidade dos eleitos. Importante é a qualidade de quem vai para lá. Até para reformar o sistema político, porque ele tem defeitos, obviamente. O número de partidos que nós temos é indecente; o fundo eleitoral, fundo partidário é outra indecência. E também tem uma série de regras nesta área… Colocar mais barreiras no número de partidos, para diminuir dinheiro do fundo eleitoral. O fundo partidário e o fundo eleitoral seriam muito maiores se a gente não tivesse brigado no ano passado e ainda assim ficou muito grande. Até para fazer as reformas políticas, você tem que ter gente lá na Câmara dos Deputados e no Senado que queira fazer essas reformas. E que queiram fazer pensando no Brasil e não pensando na próxima eleição deles. Este é o problema central. Não se faz legislação neste País pensando no bem do País; se faz pensando na próxima eleição, e aí complica. Aí perguntam: como é que se faz para eleger bem? É difícil. Como é que você faz para contratar uma pessoa para trabalhar para você? Você olha primeiramente se ela tem histórico de que já roubou algum dia na vida. Já tem algum processo? Tem competência? Tem bons hábitos? Isso que você usa para escolher alguém para trabalhar para você, para ser teu sócio, para ser teu funcionário, é o que nós deveríamos usar para escolher e votar no candidato. Quem é este camarada? O que ele já fez? Qual é a biografia dele? Trabalhou como? Ganhou a vida por ele mesmo? Foi político? Fez alguma coisa na iniciativa privada? Não que isso seja de fundamental importância, mas é um bom sinal. Se já fez alguma coisa na iniciativa privada, pagou todos os impostos direitinho, é um bom sinal. O povo brasileiro vai muito fácil na conversa de político. Bons discursos todos têm. Discursos maravilhosos, eles vendem avião pegando fogo. E o povo vota neles.

Hoje só se fala em Lula ou Bolsonaro. É uma política bipolar, bipolar no sentido de que são dois polos, e bipolar no sentido da doença mesmo. Ou você quer a corrupção de esquerda ou você quer a corrupção de direita. Eu não quero nenhuma das duas. Não quero corrupção. Eu quero um País que tenha alguém na presidência da República honesto, digno, preparado, pensando no País. Não só na presidência da República, na Câmara dos Deputados e no Senado também. E no comando da Justiça brasileira também. Não vamos cair na história de que elegemos o presidente da República e está tudo certo. Não está! Para fazer a reforma que precisamos no Brasil, precisamos mudar muito mais que o presidente da República; precisamos mudar o Legislativo. Senão não muda o País.

Parece que vão aprovar o tal do Distritão. O senhor acha que isso pode comprometer a renovação para o Congresso no ano que vem?

Eu vejo as coisas na Câmara dos Deputados e nós temos que esperar a Câmara dos Deputados falar para depois o Senado falar alguma coisa. Enquanto não passar na Câmara, enquanto não chegar ao Senado, nós não podemos ainda fazer nada. É muito difícil prever o que vão aprontar. As reformas que fizeram até agora foram sempre no sentido de beneficiar a reeleição de quem já está lá; este é o meu maior medo. A Renata Abreu que, por sinal, é presidente do meu partido, defende a ideia de que se acabe com a proporcionalidade e que se eleja apenas os que têm realmente o maior número de votos. Eu acho uma ideia interessante; tem gente que tem críticas a essa ideia, mas vamos ver o que a Câmara aprova.

Qual sua análise sobre o governo Bolsonaro e o atual momento político do País – com constantes ameaças à democracia, a questão do voto impresso e a CPI da Covid?

Eu avalio com bastante preocupação. Dentre as preocupações, as declarações do presidente são, no mínimo, infelizes, de ameaçar o País. “Ou tem eleição com voto impresso ou pode não ter eleição” é desrespeitar a Constituição. Ele foi eleito a vida inteira pelo voto eletrônico, sei lá quantas vezes foi deputado federal e nunca reclamou. Agora, de repente, começa a reclamar. Esta reclamação dele é suspeita, para dizer o mínimo. Depois, eu vejo com muita preocupação estas falas. O cargo de presidente da República tem todo um ritual a ser observado. Não pode um presidente da República dizer palavras de baixo calão, a maneira como ele se referiu à CPI, nem vou repetir aqui; xingar um ministro do Supremo de imbecil, de tolo. A coisa desce para um nível que não é um nível de presidente da República. Falta postura, falta este ritual do cargo. Seria como o Papa começar a falar certas coisas, não pode fazer. O Papa tem um ritual, uma maneira de se comportar. Saudades eu tenho da elegância de um Fernando Henrique Cardoso, da cultura de um Fernando Henrique Cardoso, e de outros presidentes que tivemos. Infelizmente, Bolsonaro neste quesito é um ponto fora da curva. Muito triste! Quanto à CPI, ela vai em episódios. Nós tivemos a “Rachadinha”, nós tivemos o Queiroz, tivemos os depósitos na conta da primeira-dama, feitos pelo Queiroz e nunca esclarecidos. Nós tivemos vários indícios de corrupção no governo e na família Bolsonaro. Nada provado? Nada provado porque a nossa Justiça é muito lenta, devagar quase parando. A CPI, neste contexto, está levantando mais evidências de corrupção a respeito de compras de vacinas. A própria postura do presidente, independente se houve corrupção ou não, é uma questão de humanidade. Como é que você trata, na pandemia, que matou mais de 500 mil pessoas, da forma como ele tratou? Dizendo que não era coveiro, dizendo que quem não enfrenta a Covid é marica, imitando alguém que sente falta de ar. Meu Deus, quem tem um parente que morreu de Covid, quem tem um amigo que morreu de Covid, como se sente tendo um presidente assim? É grotesco. Grotesco no palavreado, na falta de humanidade, é grotesco. É uma tristeza para o País ter um presidente assim. Os comentários sobre a primeira-dama da França… Essas coisas todas que tivemos. Todo o Brasil sabe que não é à toa a desaprovação de Bolsonaro estar nas alturas. A CPI está levantando estes problemas de corrupção da vacina, que são graves, não há nenhuma prova do envolvimento do presidente ainda, mas a CPI continua. Vamos ver onde vai dar isso. Agora a Polícia Federal entrou no meio também. Nós estamos vivendo em meio a uma quadra muito difícil. E nós caímos na questão de qual é a saída? Como é que fica 2022 com a sua eleição? Hoje só se fala em Lula ou Bolsonaro. É uma política bipolar, bipolar no sentido de que são dois polos, e bipolar no sentido da doença mesmo. Ou você quer a corrupção de esquerda ou você quer a corrupção de direita. Eu não quero nenhuma das duas. Não quero corrupção. Eu quero um País que tenha alguém na presidência da República honesto, digno, preparado, pensando no País. Não só na presidência da República, na Câmara dos Deputados e no Senado também. E no comando da Justiça brasileira também. Não vamos cair na história de que elegemos o presidente da República e está tudo certo. Não está! Para fazer a reforma que precisamos no Brasil, precisamos mudar muito mais que o presidente da República; precisamos mudar o Legislativo. Senão não muda o País.

Como o senhor vê o apoio ao presidente por parte de representantes do Podemos na CPI da Covid?

São dois senadores do Podemos que estão na CPI. É o Eduardo Girão e o Marcos Do Val. Eu não vi apoio expresso de nenhum deles ao presidente, o que eu vi, por parte do Girão, foi uma insistência muito grande e que foi uma insistência em que eu não concordo com ele, é que a CPI deveria se dedicar a levantar casos de corrupção nos Estados, e o foco dele era mais voltado para os Estados, e insistiu muito nisso. E também o Girão e o Marcos do Val ficaram lá, no começo, querendo defender tratamentos alternativos com Ivermectina ou coisas que o valham. Tirando este aspecto, eu não vejo. Quem é o defensor do governo ali realmente é o Marcos Rogério, este sim, o Fernando Bezerra, e outros que lá estão. Mas eu diria que o Marcos do Val e o Girão não são defensores do Bolsonaro; eles são defensores de uma linha de investigação na CPI que acho que está errada. Eu não concordo com eles, já disse isso para eles. A maioria do partido não concorda, é uma posição deles, não é a do partido.

Eu conheço o Sergio Moro. Acho que ele reúne e tem todas as condições para ser um grande presidente: tem a idade certa, tem a experiência certa, tem trânsito internacional, fala mais de uma língua, é um juiz de direito preparadíssimo, foi ministro; ele só não é um grande político.

Sergio Moro esteve em Brasília e passou alguns dias no Brasil. O senhor se encontrou com ele ou vai se encontrar? O senhor também está conversando com ele sobre se filiar ao Podemos?

Nós conversamos, eu, o Alvaro Dias e a Renata Abreu. Nós conversamos várias vezes com o Sergio Moro para ele se filiar ao partido, e para que ele se candidate à presidência da República. Nós queremos uma terceira via. Eu não quero nem a extrema direita e nem a extrema esquerda, eu quero uma terceira via. Acho que eu e milhões de brasileiros. Sou democrático e tenho que defender que o Lula seja candidato; quem quer eleger o Lula tem todo o direito, quem quer eleger o Bolsonaro tem todo o direito, e quem não quer eleger nenhum dos dois tem todo direito também de lutar por uma terceira via. A minha esperança é que seja o Sergio Moro. Eu conheço o Sergio Moro. Acho que ele reúne e tem todas as condições para ser um grande presidente: tem a idade certa, tem a experiência certa, tem trânsito internacional, fala mais de uma língua, é um juiz de direito preparadíssimo, foi ministro; ele só não é um grande político. O Sergio Moro de discurso não é muito craque, mas isso é o que menos importa; o que importa é que ele seja uma pessoa com a formação ética e preparado, e que seja capaz de se cercar de gente séria, coisa que ele é, e que fez muito bem no Ministério da Justiça. E fez isso como juiz também, trabalhou muito bem. Nós temos insistido para que ele seja candidato à Presidência da República e que ele se filie ao Podemos. Até hoje ele não se filiou ao Podemos, e até hoje ele não disse que será candidato a presidente da República, é preciso dizer isso com muita clareza. O Sergio ainda não se definiu, ele está pensando no assunto. Nós continuamos insistindo porque ele ainda não disse “não”, “não vou me filiar” ou “não vou me candidatar”. A hora em que ele disser que não vai se candidatar, aí vamos começar a procurar uma outra opção, porque alguma opção nós temos de ter. Por enquanto, ele é nossa opção – e eu fiz até um apelo a um grupo de médicos estes dias, acho que andou circulando. Eu acho que uma das coisas que pode decidir, pode fazer com que Sergio Moro se decida a ser candidato, é exatamente o apelo popular. Está na hora da gente mostrar que nós queremos alguém que simbolize esta terceira opção. Nós queremos sair desta política bipolar, nós queremos alguém que materialize um Brasil novo, chega de passado. Acho que voltar para o Lula é voltar ao passado, a repetição do Bolsonaro vai ser passado também; Bolsonaro não é mais novidade, nós o conhecemos bem agora. Nós temos que ter um caminho novo, e este caminho novo acho que o Moro representa muito bem. Ele vai bem nas pesquisas, e acho que, se ele for candidato, a chance que ele tem de se eleger é muito grande. É uma questão de trabalhar. Mas o fato é que ele ainda não disse que é candidato. Mas também não disse que não é. Isso ainda me dá muita esperança.

Já discutimos sobre economia e vários outros assuntos e Sergio Moro tem uma belíssima cultura geral. Um presidente precisa também de uma forte formação moral, e ele tem essa formação.

O Alvaro Dias e a Renata Abreu disseram que Moro deve dar uma resposta em outubro ou começo de novembro. Teria algum motivo para ser nessa data?

Eu estava junto com o Alvaro e a Renata quando Moro falou isso. A ideia é que, em outubro, ele responda. Não há um dia fixo. Acredito que a própria proximidade do ano eleitoral seja o motivo. As candidaturas vão se definido nesta data. Hoje, sabemos que candidato fixo é o Bolsonaro e que o Lula se diz candidato também. Aliás, Lula ainda não se diz candidato, ele está fazendo o charme dele. Nesta ocasião, os partidos vão ter que definir. O Kassab está querendo que o Rodrigo Pacheco se candidate. O quadro político deve se definir. O Moro também tem questões pessoais a resolver, pagar o aluguel no fim mês, contas. Tem que trabalhar. Ele não é um homem rico; não vive de rendas. Tinha que trabalhar, foi trabalhar e está trabalhando. E também pelas incertezas todas do quadro. O melhor agora é esperar a poeira abaixar um pouco. A ira dos bolsonaristas contra ele estava muito grande também. Vamos ver agora em outubro como vai ser a definição dele. Ele precisa ter condições para isso.

Como é que o senhor imagina um governo Sergio Moro? O que o senhor acha que ele iria fazer? Equacionar as questões políticas, como o senhor falou, não é uma coisa fácil…

Não! Não é fácil pra ninguém; o desafio é enorme. Eu mesmo enfrentei vários desafios na minha vida que não foram fáceis, como ser reitor de uma universidade com 30 e poucos cursos. Nada que se compare a ser presidente da República… Era uma coisa bem mais simples, mas, mesmo assim, eu tive que aprender um pouco de Odontologia, Medicina, Engenharia, Fisioterapia e Agronomia – dos diversos cursos de uma universidade. Lógico que você não vai entender de tudo. Assim como no País também, você tem que entender de várias áreas – tem que entender de economia, tem que entender do judiciário, tem que entender de infraestrutura. Os conhecimentos para um presidente da República são muito amplos. Já discutimos sobre economia e vários outros assuntos e Sergio Moro tem uma belíssima cultura geral. Um presidente precisa também de uma forte formação moral, e ele tem essa formação. Também é preciso ter a capacidade de fazer uma equipe boa; ministérios bons; se cercar de gente séria, de gente que realmente entenda dos assuntos; precisa ter uma habilidade política; e é preciso contar com uma boa base política para negociar com o poder Legislativo. É aí que mora o principal perigo; tem que ter jogo de cintura para isso. Por mais que a gente reforme a Câmara dos Deputados e o Senado, ainda assim, não será fácil para nenhum presidente lidar com o poder Legislativo. E ele vai ter de ter assessores para isso; assessores políticos, assessores econômicos, funcionários da saúde, funcionários da educação, de todas as áreas em que o governo atua. Eu acho que ele tem capacidade de juntar gente boa, ele conhece muita gente, é muito bem informado, e o governo é uma equipe, não é um homem só.

E essa questão política que tem no STF? O ex-ministro Marco Aurélio falou que o STF ressuscitou o Lula. Como o senhor avalia o papel do STF nos problemas do Brasil, e o que poderia ser feito dentro de um governo Sergio Moro e Podemos com relação ao STF? Que tipos de reformas seriam necessárias no Judiciário para que ele cumprisse mais a Constituição?

Existem no Senado Federal inúmeros projetos, não só de minha autoria, mas de autoria de vários senadores. Existe projeto, por exemplo, para limitar o número de anos que um ministro do Supremo pode ficar lá; existem projetos para revogar a PEC da bengala, ou seja, que eles se aposentem antes; existem inúmeros pedidos de cassação de ministros do STF – e isso é coisa que o Senado pode fazer e nada disso nunca foi votado. Existe um projeto meu que é o de acabar com as decisões monocráticas, que a corte realmente fale pelo seu conjunto, e que não fique cada ministro seguindo uma coisa. Tivemos decisões aí que um dia um ministro (Kassio Nunes) decidia que as igrejas poderiam reunir para culto durante a pandemia e, no dia seguinte, outro ministro (Gilmar Mendes) decidia que não poderia. Isso é em tudo. Decisões monocráticas criam uma insegurança jurídica enorme e isto é terrível para o País. Não só no aspecto político, mas no aspecto econômico principalmente. A hora em que se disciplinar estas decisões monocráticas, a hora em que acabar com o foro privilegiado, muda completamente a atuação do Supremo. E se pode fazer outras reformas simples, pode-se reformar a Constituição e fazer com que isso não suba ao Supremo e termine no STJ. O Supremo então passaria a ser um Supremo, com interpretações da Constituição; não precisaria ficar virando tribunal criminal. Basta tirar os políticos de lá que já acabam todos os processos parados. Acabando o foro privilegiado, o criminal não vai mais para o Supremo. Não é difícil reformar, precisa de vontade política e, às vezes, uma pressão popular.

Para finalizar, o senhor poderia deixar uma mensagem de esperança para as pessoas que apoiam o Sergio Moro?

A minha mensagem para este grupo é: “Vocês estão no caminho certo”. Quem perde as esperanças perde tudo. O futuro é uma coisa que nós construímos hoje, com muito esforço e muito trabalho. Construímos quando todos dizem que “isso não é possível, isso não vai dar certo”, mas acreditamos naquele caminho. Quando eu montei a minha primeira empresa, todos ao meu redor diziam que eu estava louco e que eu ia quebrar. E eu insisti, insisti e montei um dos grandes grupos empresariais do Brasil. E, na política, foi a mesma coisa: quando eu fui candidato pela primeira vez, eu tinha menos de 1% de intenção de voto e acabei em primeiro lugar. Nós temos que acreditar que é possível fazer as coisas certas. É possível endireitar o Brasil. Precisamos acreditar que não são só duas opções: ou é Lula ou é Bolsonaro, ou é a extrema direita ou é a extrema esquerda. É possível ter um governo de centro. É possível ter alguém decente, alguém preparado. A maioria do povo brasileiro é trabalhador, é cordato, é gente séria. Nós temos que ter alguém que nos represente e que seja igual à maioria do povo brasileiro. Vamos fazer de tudo para que seja o Sergio Moro. Eu estou com vocês nesta. Eu estou brigando para que ele seja candidato também. Se Sergio Moro chegar em outubro ou novembro e disser assim: “Não vou ser candidato, não insistam mais”, vou dizer: “Muito bem!”. Vou respeitar a vontade dele, mas não vou desistir da ideia da terceira via. Vamos achar outro. Nós não podemos é abandonar o Brasil; nós não podemos dizer: “Isso aqui não tem mais jeito”. Vai ter jeito, sim!

Os outros países, que hoje estão bem, também passaram por muitas dificuldades. E nós estamos pagando o preço do nosso aprendizado. Estamos aprendendo a votar, aprendendo que não temos que eleger com cuidado só o presidente da República, é preciso pensar mais no Poder Legislativo também. Nós não podemos desistir do Brasil! Vocês estão certíssimos, a hora de bater panela para que o Moro seja candidato é agora. Mas nós temos que pressionar o Moro para que ele aceite ser candidato até a hora em que ele disser: “não quero, não vou”, depois temos que respeitar. Ele não disse ainda, então temos que continuar pedindo que ele seja. Vamos em frente!

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Uma resposta

  1. Presidência da República honesto, digno, preparado, pensando no País.
    Palavras do Senador em relação a Mouro coisa que os políticos de esquerda ou direita não pensam nas futuras gerações de nosso País e sim nas próximas eleições.

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