O PAÍS DOS ANALFABETOS DA LÍNGUA, DA HONESTIDADE E DA CIDADANIA

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No Brasil, a gramática e a semântica são esbofeteadas diariamente. Os significados das palavras e os sentidos das frases são submetidos a um contorcionismo linguístico de fazer Aurélio Buarque de Holanda e Rui Barbosa revirarem-se em seus túmulos, várias vezes ao dia. As campeãs absolutas dessas apresentações circenses, em que o artista se dobra como borracha para se meter dentro de uma caixa de laranjas, são as palavras “justiça”, “paz”, “liberdade” e “harmonia”. Justamente essas que são as maiores garantidoras e os maiores símbolos da democracia!

Bolsonaro é quem mais maltrata a palavra “liberdade” para justificar suas insanidades. Para ele, todo cidadão tem o direito de expor-se a um vírus e contaminar seu semelhante, o que inclui a liberdade de ir e vir da própria doença. Todos têm o direito de soltar gases sonoros em suas lives, aconselhar o uso de medicamentos sem eficácia, ameaçar invadir a Suprema Corte, difamar e acusar seus ministros sem provas; de ofender governadores, juízes, procuradores, cooptar integrantes das polícias, do exército e planejar ao vivo um golpe de estado. Enfim, um libertário, anarquista sem método travestido de democrata liberal.

Não bastasse ser praticado com palavras e sentidos, esse contorcionismo se estende às atribuições dos três poderes e à nossa sofrida e vilipendiada Constituição Federal. Os presidentes da Câmara e do Senado confundem omissão com busca pelo entendimento para a “harmonia” e “paz” entre os três poderes. No Judiciário, a “justiça” tem preferências pessoais e partidárias, e a urgência muitas vezes é determinada por interesses não muito republicanos. Em ambos os poderes, o corporativismo tem prioridade absoluta sobre todas as outras causas.

Para Bolsonaro, todo cidadão tem o direito de expor-se a um vírus e contaminar seu semelhante, o que inclui a liberdade de ir e vir da própria doença. Todos têm o direito de cooptar integrantes das polícias, do exército e planejar ao vivo um golpe de estado.

Na Câmara, Arthur Lira com seu traseiro assentado sobre mais de cem pedidos de impeachment, se considera um mensageiro da “paz”, homem de tolerância infinita. Alega ser um simples tarefeiro, comprometido com as reformas tributária e administrativa, além das privatizações que já se tornaram folclore. Extorquir o Executivo com verbas e cargos é outra atividade importante. O resto é bobagem. Fiscalizá-lo, que é uma das mais importantes atribuições da Câmara, nem nas horas vagas, e olha que são muitas. Centenas de milhares de inocentes mortos, vacinas superfaturadas por organizações criminosas que atuam no seio do próprio governo, crimes de responsabilidade, gabinete do ódio, fake news, ameaças de golpe e outros impropérios são menos importantes. O Brasil de Lira só arrecada impostos e gasta. A saúde econômica das empresas e dos que trabalham para pagar esses impostos são apenas detalhes. Humanismo também.

No Senado, Rodrigo Pacheco declara-se um pacifista que luta pela “harmonia” entre os três poderes. Com voz grave e tão pausada quanto suas próprias atitudes, Pacheco nos transmite a imagem de um lorde inglês subindo um morro montado numa tartaruga. Não há pressa para nada e não há crime algum rolando na Banânia. Está tudo bem, está tudo certo. Erradas são as pessoas que desejam tirar a paz do Senado e dos outros dois poderes. Para ele, nenhum pedido de impeachment contra o presidente tem fundamentação jurídica, mesmo que tenha sido elaborado por advogados renomados e referendado pelos melhores juristas do País. Se submetido à Comissão de Constituição e Justiça, analisado e considerado bem fundamentado, de nada adiantará. Constituição acima de tudo, mas a tal da “harmonia” acima de todos. É de fazer inveja a Mahatma Gandhi.

Resumindo, Lira e Pacheco são sommeliers da gastronomia política, aqueles que só harmonizam vinhos caros com seus pratos raros. O Titanic afundando e eles jantando em lauta mesa ao som de Strauss, mas com seus botes e coletes garantidos. Para nós, cidadãos que os elegemos, marmitex com tubaína ao som de Sérgio Reis, rumo ao fundo do oceano. 

Por último, o presidente Luiz Fux ainda aposta na regeneração de Bolsonaro, tal como um jesuíta que tenta civilizar e mostrar o caminho da fé para um Australopithecus. Enquanto isso gilmares, kássios, toffolis e lewandowskis reinam com decisões monocráticas e de pífia maioria em suas turmas, arquivando processos e tornando impunes bandidos e investigados da Lava Jato. Só as análises em plenário às vezes nos salvam, mas as turmas dificilmente submetem suas decisões a ele, alegando sentirem-se diminuídas em sua autoridade. Sim, nós leigos e imbecis, acreditamos piamente que o motivo é esse.

Não queremos Sergio Moro como candidato da “terceira via” por questões de fanatismo, por considerá-lo herói nacional ou por outros motivos superficiais. Não precisamos de “mitos” ou “heróis” para colocar o País nos trilhos, mas sim de cidadãos que possuam um histórico pessoal e profissional dignos de um líder.

Talvez eu os tenha cansado com o abuso da ironia, mas Victor Hugo dizia que é por ela que se começa a liberdade. Porém, humanista que era, segundo ele não se desassocia a liberdade da responsabilidade, ao contrário, quanto maior a liberdade, maior a responsabilidade. E o que vemos hoje é um presidente que repete essa palavra a todo instante sem a menor consciência do seu verdadeiro significado. O mesmo acontece com as palavras “justiça”, “paz” e “harmonia” que são cansativamente repetidas por parlamentares, porém distorcidas e contorcidas para que esses analfabetos da língua e da cidadania construam suas narrativas hipócritas e de falsa retórica.

Ao contrário do que muitos pensam, não queremos Sergio Moro como candidato da “terceira via” por questões de fanatismo, por considerá-lo herói nacional ou por outros motivos superficiais que os eleitores até hoje têm criado para mitificar seus ídolos políticos. Não precisamos de “mitos” ou “heróis” para colocar o País nos trilhos, mas sim de cidadãos que possuam um histórico pessoal e profissional dignos de um líder, comprometido com as suas promessas de campanha, com a Constituição Federal e com as as leis que regem o País. Que reconheça e nos mostre os motivos sem insultar nossa inteligência com novas interpretações, dizendo que não era bem aquilo que disse, gravou e escreveu; que não torture o significado das palavras e o sentido das frases. 

Como escrevi no início, Aurélio Buarque de Holanda ficaria pasmo como dicionarista, escritor e crítico literário, mas completamente chocado ficaria Rui Barbosa. Com sua visão ampla de jurista, advogado, político, diplomata, escritor, jornalista e orador, o significado das palavras  e as questões semânticas ficariam em segundo plano. Como em sua famosa frase, hoje ele não sentiria só vergonha das virtudes e de ser honesto, mas também frustrado de ter se dedicado de corpo e alma à terra em que nasceu e que tanto amava; de ver suas frases coerentes com seus exemplos de vida sendo repetidas por mentirosos, hipócritas, enganadores e bandidos.

Sentiria vergonha de ser brasileiro.

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