A LAVA JATO MORREU. VIDA LONGA À LAVA JATO!

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Imagem: Phillip Honorato

Enquanto Bolsonaro e Aras se encarregam de destruir o presente da Lava Jato e o Congresso – dominado pelo Centrão – atua para acabar com o futuro da força-tarefa e de qualquer outra que ouse tocar nos poderosos, uma parte do STF trabalha para demolir até mesmo o passado da operação.

Em 2017, três anos após o início da Operação Lava Jato, a corrupção apareceu pela primeira vez como a principal preocupação dos brasileiros. O resultado da pesquisa, que vinha sendo realizada pelo Latinobarômetro há 22 anos, era mais um sinal do legado histórico da força-tarefa que investigou o Petrolão – megaesquema criminoso de corrupção, liderado pelo PT, no qual grandes empreiteiras organizadas em cartel pagavam propina para altos executivos da Petrobras, agentes públicos e políticos de diversos partidos.

No dia 1º de fevereiro de 2021, o Ministério Público Federal anunciou o fim da força-tarefa no Paraná, concluindo com aparente sucesso a missão do Procurador-Geral da República, Augusto Aras – indicado a dedo por Jair Bolsonaro, aquele que foi eleito justamente para evitar o desmantelamento da Lava Jato pelo PT, mas, acuado pelas investigações à sua família, resolveu se juntar aos petistas e ao Centrão para acabar com a operação. Antes de ser indicado por Bolsonaro, Aras já apontava os “excessos” da Lava Jato e, em uma live com figuras do mundo petista, em julho do ano passado, prometeu “corrigir rumos para que o lavajatismo não perdure”, retomando o “natural, bom e antigo enfrentamento à corrupção” –  no qual os poderosos nunca são punidos ou sequer importunados.

Meses antes do fim oficial da força-tarefa, Bolsonaro, o chefão do Aras, já anunciava, do alto da sua peculiar arrogância: “É um orgulho, é uma satisfação que eu tenho, dizer a essa imprensa maravilhosa que eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato, porque não tem mais corrupção no governo”, gabou-se o presidente, nos fazendo reviver a famosa fala de Lula em entrevista no seu Instituto, em janeiro de 2016: “Se tem uma coisa de que me orgulho e que não baixo a cabeça para ninguém é que não tem nesse país uma viva alma mais honesta do que eu. Nem dentro da Polícia Federal, do Ministério Público, da Igreja Católica, da igreja evangélica, nem dentro do sindicato. Pode ter igual, mas eu duvido”. Pausa para gargalhadas…

Protegidos pelo isolamento social da população, o sindicato dos corruptos esbanja todo o seu sadismo e covardia no melhor estilo “quando o gato sai, os ratos fazem a festa”. Além de nomear petistas para postos chaves do seu governo e ter se tornado amigão de Dias Toffoli (advogado-geral da União durante o governo petista e, segundo Marcelo Odebrecht, o “amigo do amigo” do pai dele), Bolsonaro também entregou a chave do cofre para o Centrão – ao qual cabe criar ou desvirtuar, com o único objetivo de garantir impunidade total aos corruptos, projetos de Lei no Congresso, que são sancionados a toque de caixa pelo inquilino do Planalto, geralmente com um teatrinho do tipo: “Não posso fazer nada”, bem diferente do candidato que repetia: “Soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um covarde”.

E você acha que “já acabou, Jéssica?”, como diria a adolescente que foi filmada levando uma surra épica da colega e virou meme pela reação completamente atípica. Não, não acabou! O sadismo dos ladrões dos nossos impostos continua e já está claro qual será o próximo passo: anular a Lava Jato (assim como fizeram com a Satiagraha – operação que envolveu 300 policiais e foi anulada porque mexeu com poderosos, e a Castelo de Areia, anulada porque, estranhamente, a Justiça deixou de aceitar denúncias anônimas logo quando elas atingiram os poderosos). E, tudo indica, não pretendem parar por aí: querem ainda se vingar daqueles que ousaram atrapalhar a indústria da corrupção no Brasil, mais precisamente Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato. Para isso, contam com seus causídicos no Judiciário e até mesmo com hackers que roubaram e vazaram supostas conversas de procuradores e juízes, sabe-se lá contratados por quem.  

A mesma Justiça – que acabou de considerar inválidos relatórios de órgãos oficiais de investigação, autorizados por um juiz, no caso Flávio Bolsonaro – decidiu  liberar, na pessoa do ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski (conhecido como o embaixador do PT no STF), o acesso a essas mensagens, ilegais e sem verificação de autenticidade, aos advogados de Lula. Decisão essa que foi chancelada pela tal 2ª Turma do STF, liderada por ninguém menos que Gilmar Mendes, o arqui-inimigo da Lava Jato, que, um dia, já apoiou tanto a operação quanto a prisão após condenação em segunda instância.

Para completar o trabalho dos hackers, há ainda as narrativas de militantes infiltrados na imprensa que não têm vergonha de publicar diálogos roubados e vazados sem qualquer comprovação de autenticidade. Eles tentam, a todo custo, tornar essas supostas conversas em algo criminoso. Em uma delas, por exemplo, Sergio Moro, então ministro da Justiça, pergunta ao procurador Deltan Dallagnol se havia algo que ele pudesse fazer para agilizar os contatos de cooperação internacional, já que estava indo para o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Um absurdo, não é mesmo? Que tipo de ministro da Justiça é esse que quer que a Justiça funcione? Isso mesmo, senhoras e senhores: crime hediondo na República do Centrão é se esforçar para combater bandidos.

Quem não se lembra da declaração de Toffoli, então presidente do STF, em uma entrevista ao Estadão: “A Lava Jato destruiu empresas”? Coitadinhas dessas empresas! Elas podiam estar aqui roubando, mas estavam pedind… pera! Estavam roubando sim! Bilhões de roubalheira para seus executivos se locupletarem em jatinhos particulares, mansões e joias, desviando, para contas no exterior, o dinheiro que deveria ser investido em saúde e educação. Como bem lembrou o ministro do STF, Luís Roberto Barroso, no seu livro “Sem Data Venia: Um Olhar Sobre o Brasil e o Mundo”, e também em uma entrevista ao historiador Marco Antonio Villa: “Eu ouvi o áudio do senador pedindo propina ao empresário e indicando quem iria recebê-la, bem como vi o vídeo do dinheiro sendo entregue; eu vi o inquérito em que altos dignitários recebiam propina para atos de ofício, abriam offshores por interpostas pessoas e, sem declará-las à Receita, subcontratavam empresas de fundo de quintal e tinham todas as despesas pagas por terceiros; eu vi o deputado correndo pela rua com uma mala de dinheiro com a propina recebida, numa cena que bem serve como símbolo de uma era; todos vimos o apartamento repleto com 51 milhões de reais, com as impressões digitais do ex-secretário de Governo da Presidência da República no dinheiro; eu vi, ninguém me contou, o inquérito em que o senador recebia propina para liberação dos pagamentos à empreiteira pela construção de estádio; todos vimos o diretor da empresa estatal que devolveu a bagatela de R$ 182 milhões; e todos vimos a usina que foi comprada por US$ 1,2 bilhão e revendida por menos da metade do preço”.

Para Barroso, “a articulação para derrubar a possibilidade de execução das condenações criminais após a segunda instância foi o momento mais contundente da reação (do sistema corrupto), logrando obter a mudança de posição de dois ministros do Supremo que, antes, haviam sido enfaticamente favoráveis à medida”.

O relator da Lava Jato no STF, ministro Edson Fachin, em entrevistas recentes à VEJA e à Folha, também acusou o golpe: “O contexto é preocupante: forma-se uma frente ampla contra a democracia e a favor da não apuração nem punição a quem se imputa, no devido processo, a prática de delitos como corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa”. E completou: “a Lava-Jato padece mais por seus resultados do que pelos seus erros”.

“A lição é a seguinte: nunca desista, nunca, nunca, nunca. Em nada. Grande ou pequeno, importante ou não. Nunca desista. Nunca se renda à força, nunca se renda ao poder aparentemente esmagador do inimigo”.

Winston Churchill

A tentativa desesperada de colocar o gênio de volta na garrafa, aproveitando o contexto sanitário que impede mega manifestações, esbarra justamente nos números extraordinários da Lava Jato, compilados pelo jornal Gazeta do Povo: “Em sete anos de investigação do maior escândalo de corrupção da história do país, montado pelo governo petista com a participação de outros partidos e de empreiteiras para sangrar estatais e alimentar um projeto antidemocrático de poder, foram 130 denúncias contra 533 acusados, resultando em 278 condenações atingindo 174 pessoas, cujas penas, somadas, são de 2.611 anos. Os 209 acordos de colaboração e 17 acordos de leniência resultaram em compromissos para a devolução de R$ 15 bilhões, dos quais R$ 4,3 bilhões já retornaram aos cofres públicos ou da Petrobras. Se mais não houve, foi apenas porque os detentores de foro privilegiado têm tido a vida facilitada pela inaceitável lentidão tanto da PGR quanto do Supremo Tribunal Federal”. Vão devolver, na nossa cara, esses bilhões aos corruptos?

Infelizmente, para o sistema corrupto, e felizmente, para nós, que pagamos altos impostos sem ter nada em troca, a Lava Jato não é mais apenas uma operação. Como bem lembrou o ex-delegado da Polícia Federal, Jorge Pontes: “A Lava Jato é hoje uma grandeza abstrata inatingível, pois ela nos trouxe a consciência de que somos roubados por grande parte das nossas próprias elites políticas, detentores de um poder que deveria ser exercido em nosso nome e interesse. Enfim, só haverá o tiro de misericórdia na operação se lograrem apagar definitivamente das nossas memórias todas as falcatruas que vimos desfilarem nas manchetes de jornais, todas as confissões detalhadas e comprovadas dos colaboradores e todos os bilhões de reais devolvidos pelos corruptos e corruptores”. 

A missão dos coveiros da Lava Jato se assemelha a dos agentes do filme “MIB: Homens de Preto”, personagens vividos por Will Smith e Tommy Lee Jones. Eles tinham que usar o chamado neuralizador – uma espécie de sabre de luz – capaz de apagar a memória de todos que não estivessem usando um par de óculos escuros e, assim, manter a atividade alienígena em segredo. A Lava Jato revelou o tamanho da sujeira que Brasília tentou esconder do País e não é mais possível manter em sigilo a atividade da corrupção sistêmica e indecente, que rouba o futuro dos brasileiros.

Pesquisa da EXAME/IDEIA, divulgada no dia último dia 13 de fevereiro, mostrou que 80% dos brasileiros são favoráveis à continuação dos trabalhos da Lava Jato. O apoio estrondoso à força-tarefa, nesse País tão dividido, é a prova que os sanguessugas da corrupção não perdem por esperar uma reação do povo. Nós sabemos o que vocês fizeram nos verões passados e continuam fazendo dentro dos seus gabinetes luxuosos e pagos por nós. 

Parafraseando a tradicional proclamação feita quando um rei morre e outro rei assume o seu lugar: “A Lava Jato morreu. Vida longa à Lava Jato!”. Nunca mais o Brasil será o mesmo. A qualquer momento, assim que for possível, teremos um novo junho de 2013 e a oportunidade de acabar com a festa criminosa dos ratos, seja nas ruas ou seja nas urnas.

Enquanto isso não acontece, nosso lema são as palavras do inglês Winston Churchill, o tipo de grande estadista que falta entre aqueles que hoje detêm a caneta no Brasil: “A lição é a seguinte: nunca desista, nunca, nunca, nunca. Em nada. Grande ou pequeno, importante ou não. Nunca desista. Nunca se renda à força, nunca se renda ao poder aparentemente esmagador do inimigo”.

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3 respostas

  1. Jamais desistiremos da Lava-Jato e de Moro. Eles mostraram as entranhas da corrupção desse Brasil tão desigual e os motivos para essas desigualdades sociais.
    Jamais desistiremos de um Brasil melhor e mais igual para todos.
    Obrigada, Regina, por levantar essa bandeira de luta contra os poderosos.
    Desistir, Jamais!

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